São Paulo, 11 de Julho

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Às vezes não há mais nada para se fazer. Abro as cortinas, cerveja na mão, deito no chão da sala pra ver começar o show. E ela se mostra pra mim, se exibe, ri, mete o dedo na minha cara. Toda nua, se escancara de pernas abertas. Pudor não consta no seu léxico. Sem curvas, não é uma puta bonita. Reta, de ângulos duros, prédio atrás de prédio, com aquela lua deslocada no céu poluído, sem estrelas, é até grosseira. Mas ainda esnoba, rebola, sabe que é linda assim mesmo, meio torta. Devassa, às vezes me puxa da plateia. Me despe, me violenta, me suga inteira. Até me cuspir, mais amarga e descrente. Murcha e seca, tal como uma uva passa. Mas às vezes ela me embala. Me nina, me põe no colo, me lembra que estou sozinha. E que sozinha, nos braços dela, eu posso tudo. Me lembra que eu não posso ir embora. Não posso deixá-la, de jeito nenhum. Me dá a mão, me puxa, diz “vamos”. E eu vou. De mãos dadas com ela, noite afora. Ela não tira a maquiagem, não abre mão da cinta-liga e do corset. O show não pode acabar. E entre um gole e outro de cerveja, só me resta aplaudir.

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Velha novidade

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Não, eu não paro mais nunca.

Mentira, esse post é só um adendo ao post anterior. Porque faltou dizer quem foi a amiga que me acompanhou no Dossiê HQ, mas principalmente porque eu entrei numas que ela não vende o peixe dela. E o peixe dela é ótimo, no limão – bem ácido! -, frito no óleo requentado, pura gordura trans e zero ômega 3. A amiga em questão é a Kellen Carvalho, quadrinista que também é K2, mas atende por aí como Velha. Pra dar uma ideia, essa é a capa da edição número 1 da revista dela.

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No blog tem mais. Porque mais indigesta que a Velha, só a Nova e seus 348923 manuais de sexo lacrado e dicas de como disfarçar um pum atravessado do namorado apertando o esfíncter e mostrando o decote. É sério, isso foi publicado. Não acredita, pode ler aqui.

HQs, HQs, HQs

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Antes que eu prossiga com a programação (a)normal, não me peçam pra parar. Ok? Ok. Esse fluxo verborrágico criativo não veio do nada. Há dias e dias penso em coisas legais para postar aqui. Há dias e dias tenho visto e lido muita coisa legal, o que ajuda. Enfim.

Na sexta-feira fui com uma amiga ao Dossiê HQ, na Gibiteria. Pra quem não conhece, é uma livraria bacanuda especializada em quadrinhos na Praça Benedito Calixto, em São Paulo. Perdi o papo com os quadrinistas (a saber, Flávio Luiz, Raphael Fernandes e Sam Hart, mediados pelo Will). Quer dizer, só o principal. Quis estourar o limite do cartão na sessão de autógrafos, mas beleza. Voltei a entrar em contato com quadrinhos independentes, que praticamente tinham sumido do meu universo desde que a Mundo Arte Global, produtora de arte de Porto Alegre, fechou as portas da sua sede na Protásio Alves.

Eu amava aquele lugar. Além das exposições e oficinas massa que rolavam lá, tinha uma loja no andar de cima. Os títulos eram poucos, ficavam num cantinho junto com as latas de spray, mas foi lá que eu conheci a Tarja Preta. Foi meu primeiro contato, de verdade, com quadrinhos independentes. Principalmente, com quadrinhos feitos aqui no Brasil, que não chegam na banca. Eu mal sabia que existia muito além de Marvel/DC. Mas então, a partir daí, o volume de quadrinhos na minha estante só aumentou. Cheguei a me matricular num curso de desenho (lógico que não deu certo). Quando a festa acabou, confesso que fiquei preguiçosa.  Eu realmente não tinha desculpas, depois que me mudei para São Paulo – se acha de tudo nessa cidade, não faltam lançamentos – mas me esqueci das revistas.

Até essa sexta-feira. Saí da Gibiteria com uma sacola cheia. Levei a segunda edição de “Ditadura no Ar“, de Raphael Fernandes e Abel, a primeira edição de “Entre Quadros“, de Mário César, “Todo Mundo é Feliz“, de Mateus Acioli, a segunda edição de “Love Hurts“, de Murilo Martins, a terceira edição do “Almanaque Gótico“, de uma galera, “Felinos“, de Ricardo Vibranovski e Anderson B, e todas as edições do “Benzine“, de Daniel Linhares, que consegui achar (faltou o #1, a distribuição é gratuita). Sábado e domingo foram de cama, obviamente. Deixo um gostinho pra vocês, na ordem:

Ditadura no Ar #2

Entre Quadros #1

Love Hurts #2

Almanaque Gótico #3

Felinos

Benzine #2

PS: Todas as imagens são dos blogs/tumblrs/sites dos autores, com exceção das imagens de “Felinos” e “Love Hurts”, que são do site Impulso HQ.

O filho do homem

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A maioria de vocês sabe que estou escrevendo uma monografia sobre “El Che” Guevara. Como eu sei disso? A maioria que frequenta esse prostíbulo é de amigos meus. Enfim, a monografia não é bem sobre Che. Na verdade analisa se a fotografia mais famosa dele, “Guerrillero Heroico”, clicada por Alberto Korda em 1960, foi esvaziada da sua carga ideológica ao longo de sua trajetória, ao estender seu domínio para além das faixas de protesto para se tornar uma commodity.

O post na verdade não tem nada a ver com isso. Mas acontece que, pesquisando para a monografia, descobri um dado importante, curiosa e felizmente pouco explorado pela mídia e pelos biógrafos de Che. Ele tem um filho ilegítimo, que nem ao menos desconfiava da identidade do pai até os 25 anos de idade. Omar Pérez Lopez descobriu através dos seus amigos do movimento cultural e político cubano Paideia, do qual participava, que era filho do guerrilheiro. Nascido em 1964, Omar foi fruto de um breve caso entre Che e Lilia Rosa López. De acordo com o livro “Che’s Afterlife”, de Michael Casey, os dois se conheceram casualmente quando ela, então uma jovem estudante de jornalismo, visitava uma amiga, Ida Pérez, que trabalhava no Instituto Cubano do Petróleo. Ministro da Indústria, Che estava no local a trabalho. Surpreendeu-se com o livro nas mãos de Ida, “The Technique of Coup d’État”, de Curzio Malaparte, provavelmente porque Malaparte era, nas palavras de Casey, um fascista renascido comunista. Prometeu levar outro livro a ela, e aí começou o caso com Lilia. E embora Aleida Guevara, filha legítima de Che com a sua última esposa, Aleida March, e porta-voz da família não reconheça, a semelhança de Omar com Che é inegável.

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Omar Pérez López, Havana, 2007

Voltando um pouco no texto, disse antes que felizmente o filho ilegítimo é pouco lembrado. Pelos detratores de Che, ele é mencionado apenas para fazer referência ao período que passou em um dos campos de trabalhos forçados idealizados pelo pai, por sua liderança rebelde frente ao Paideia. Nas biografias sobre o guerrilheiro, é comum que os autores lhe dediquem poucas ou nenhuma linha. Ainda bem.

Como poeta, Omar poderia facilmente ser ofuscado pelo fantasma do pai. Ser o poeta-que-é-filho-de-Che-Guevara. E ele é um poeta fantástico. A desvantagem, claro, está no fato de que por isso mesmo ele é muito pouco conhecido. Deixo com vocês “Sangre de Alumnos”, que me levou ao seu primeiro livro, “Algo de Lo Sagrado”.

Todos necesitamos de un padre
aunque sea uno macilento.
En el momento en que la fusilería
pasa a ser la estrella de una función interminable,
el joven pide a su creador una palabra
que le ayude a no traspasar cegado por el humo
el acre que lo separa del carnicero.
Al niño después de mostrarle el uso de las manos
se le enseña que nada puede serle más dañino
que la cercanía de un maestro preciosista,
somos alumnos incapaces de distinguir un latido de otro
apenas conocemos el peso que se afianza entre las pulsaciones.
El padre es la garantía de un seguro en el arma,
nada como eso puede conservarnos
el centímetro cuadrado de piel de arcángel en el torso.
Todos necesitamos de un padre
aunque su brazo se agote en el cabo del hacha”.

PÉREZ LOPEZ, Omar. Algo de Lo Sagrado.

PS: Para quem quiser saber mais sobre o autor, recomendo os artigos “Omar Pérez and the Name of the Father” e “Coño acere, todo se vuelve agua!“, assinados pela sua tradutora para o inglês, Kristin Dykstra, e publicados pela revista Jacket. Aliás, recomendo muito essa revista de modo geral.

Truth at Gunpoint

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Alô, freguesia esparsa. Vejam só que coisa.

Há meses eu não posto nada, e o que venho postar não é novo. Mas acho que ainda é válido. Em janeiro descobri, pelo perfil do Neil Gaiman no Twitter (@neilhimself), o projeto de um poemcast. Uma menina chamada Ayu convocava gente do mundo todo a enviar seus poemas em mp3. Achei a proposta ótima, gravei e editei o que considero o meu melhor poema e… Nada. O projeto não saiu do papel. Não recebi ao menos uma resposta da Ayu. E foi então que decidi postar o áudio aqui. Deu bastante trabalho, e não acho que ele deva ficar pegando mofo no meu HD. Apesar de, claro, achar bastante constrangedor ouvir minha voz gravada. Um poema meu gravado. Tudo o que escrevo é absurdamente pessoal. Publicar é sempre um esforço. Verbalizar, então… Mas enfim, aí está. O nome do poema é Truth at Gunpoint, e foi originalmente publicado no meu DeviantArt.

PS: Não linkei a Ayu porque fiquei puta com essa história. Foi proposital mesmo.

Honorável Guy

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Ainda sobre o amor… Só agora me dei conta de que jamais publiquei no blog sequer um link para o meu primeiro conto a “ganhar as ruas”. Então decidi corrigir esse erro antes que o ano vire, outros contos ganhem pernas, saiam caminhando por aí e essa postagem perca o sentido. Ignorem o “Francisco”, publicado aqui mesmo, que precisa urgente de uma revisão. Esse outro conto a que me refiro, “Honorável Guy”, não fala bem sobre o amor, mas sobre a obsessão – às vezes a gente se confunde. Saiu há alguns meses na segunda edição da Revista Macondo, uma das publicações literárias mais legais das quais tive notícia. Para quem quiser ler, dá para baixar a revista nesse link, ou visualizá-la através deste.  Aos apressados, aviso que estou na página 40. Mas antes e depois de mim tem muita gente/coisa digna de um olhar (bem) mais detido. Boa leitura!

Cartas de Aniversário

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Ted Hughes e Sylvia Plath

O monólogo aqui no blog parece recentemente ter se desviado para o amor. Não só o amor em si, mas o amor versus literatura, aquele que não se concretiza por ela, pela ansiedade que sobrecarrega aquele que escreve, o amor na literatura, quando ele é bem ou mal retratado, mas principalmente bem, e nessa linha de pensamento… Bem, nada parece mais natural que encerrar o ano na vida – e no blog – com “Cartas de Aniversário”, de Ted Hughes.

Vocês encontrarão descrições melhores desse volume usando o Google, mas dou uma prévia para explicar meu interesse nele. Lançado em 1998, à sombra de um câncer do autor, o livro era a sua resposta a infinitos ataques de como ele teria sido responsável pela morte de sua mulher, a também poeta Sylvia Plath. Em 1963, ela se deitou no chão da cozinha do seu apartamento e ligou o gás. Quatro anos depois, Assia Wevill, a mulher com quem Hughes foi viver após deixá-la, fez a mesma coisa – antes tirando a vida da sua filha de quatro anos. Esse drama pessoal fez com que Hughes se tornasse uma espécie de alvo preferido das feministas. A morte da segunda mulher lhe garantiu instantaneamente a insígnia – bastante desagradável – de torturador de mulheres. Até que ponto isso é verdade não se sabe, nem é o foco aqui.

Meu interesse no livro deriva do fato de que sou fã de Sylvia, e depois de um ano bastante desapontador no que diz respeito ao amor (sim, bem perto desses pulmões pretos também bate um coração), me vi impelida a investigar mais a fundo um dos amores mais interessantes da literatura. Ver a versão de Hughes dos fatos, e principalmente conferir a literatura que espremeu da sua convivência com Sylvia Plath. Confesso que nunca antes havia me detido na sua obra poética, e foi uma grata surpresa. Talvez a melhor delas tenha sido “Red”, que encerra “Cartas de Aniversário”. Só não é o melhor poema sobre ela porque esse lugar é ocupado por “Lady Lazarus”, da própria Sylvia.

Red was your colour.

If not red, then white. But red
Was what you wrapped around you.
Blood-red. Was it blood?
Was it red-ochre, for warming the dead?
Haematite to make immortal
The precious heirloom bones, the family bones.

When you had your way finally
Our room was red. A judgement chamber.
Shut casket for gems. The carpet of blood
Patterned with darkenings, congealments.
The curtains — ruby corduroy blood,
Sheer blood-falls from ceiling to floor.
The cushions the same. The same
Raw carmine along the window-seat.
A throbbing cell. Aztec altar — temple.

Only the bookshelves escaped into whiteness.

And outside the window
Poppies thin and wrinkle-frail
As the skin on blood,
Salvias, that your father named you after,
Like blood lobbing from the gash,
And roses, the heart’s last gouts,
Catastrophic, arterial, doomed.

Your velvet long full skirt, a swathe of blood,
A lavish burgandy.
Your lips a dipped, deep crimson.

You revelled in red.
I felt it raw — like crisp gauze edges
Of a stiffening wound. I could touch
The open vein in it, the crusted gleam.

Everything you painted you painted white
Then splashed it with roses, defeated it,
Leaned over it, dripping roses,
Weeping roses, and more roses,
Then sometimes, among them, a little blue
bird.

Blue was better for you. Blue was wings.
Kingfisher blue silks from San Francisco
Folded your pregnancy
In crucible caresses.
Blue was your kindly spirit — not a ghoul
But electrified, a guardian, thoughtful.

In the pit of red
You hid from the bone-clinic whiteness.

But the jewel you lost was blue.

HUGHES, Ted. Cartas de Aniversário.