Mea culpa

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Por que não fui à manifestação do MPL

Alguns dias são dos “nãos” – do não dito, do não feito, do não vivido. Pelo sim, pelo não, precisava escrever esta crônica. E  não vou ludibriar ninguém: não pude ir à manifestação organizada pelo Movimento Passe Livre nesta última terça-feira, 13 de agosto. E não foi pelo tempo, pelo trabalho, por doença ou contratempo. Foi por puro pânico mesmo.

Pânico daqueles que te faz tremer as pernas, revirar o estômago, gelar as mãos e a espinha. O pânico assume muita formas para muita gente. Multidão, elevador, altura, velocidade, doença. Até, descubro agora, por um artigo da Wikipédia, há quem tema intensamente bonecos – o nome disso é pediofobia.

Mas a minha fobia, para usar o termo correto, assume contornos mais concretos, e o seu perigo é real e iminente, desde muito antes de junho deste ano. A minha fobia ganha forma com cassetete, colete verde, capacete e escudo. Se a indumentária acompanha um cavalo, não consigo respirar.

Explico: há alguns anos, desenvolvi uma paixão irracional e incompreensível até para mim pelo futebol. Não pelo futebol especificamente, mas por ir ao estádio, por pular e entoar todo o cancioneiro gremista – “Somos, somos do Grêmio, e correremos os putos do Inter”, entre outras, permanecem na memória – além de um extenso repertório de palavrões  no meio de toda aquela multidão suada. Era a minha catarse. Então, entre 2006 e 2007, não havia jogo em que eu não estivesse no Estádio Olímpico para ver o Grêmio jogar. Fosse contra o 15 de Novembro de Campo Bom, pelo Campeonato Gaúcho, fosse contra o Boca Juniors em uma final de Libertadores.

Mas uma coisa aconteceu nesta final de Libertadores, em 20 de junho de 2007. E não foi só a goleada vergonhosa que o Grêmio levou do time argentino – três gols na Bombonera, dois em casa, sem marcar um gol sequer. No jogo de volta, como sempre, eu estava lá. Antes de entrar no estádio, como de costume, tomando uma cerveja em um dos bares da volta. Foi ali o meu primeiro contato de verdade com a Policia Militar (no sul se diz Brigada, e também se faz uso dessas maiúsculas duvidosas).

Observei, cercada de amigas – éramos umas dez, aliás, o bar estava cheio de mulher – os brigadianos espancarem meia dúzia no bar da frente. Nenhuma explicação aparente. Não havia briga,  pelo contrário. Tudo estava tranquilo nas imediações. Tranquilo demais, até, para um dia de decisão. Estranhamente tranquilo. Então eles vieram na nossa direção.

“Serão os sinalizadores?”. Ninguém sabia, mas não havia tempo para perguntar. Eles vinham em muitos, uns sete, calculo, brandindo os cassetetes. Algumas correram para se espremer no banheiro minúsculo, um por dois. Empilhadas em volta do vaso sanitário, jogaram na água os artefatos proibidos. Outras ficaram na frente para ajudar a baixar a porta de ferro, ao perceberem que gritar e pedir “parem, por favor” não ia adiantar.  Não havia negociação. Enquanto a porta baixava, eles tentavam pará-la com os cassetetes. No que não conseguiram, começaram a bater para pelo menos forçar uma intimidação.

Saímos de lá acuadas, guiadas por outros torcedores, que nos acompanhavam e indicavam por quais ruas podíamos passar. Algumas estavam fechadas, outras haviam se tornado pequenos cenários de guerra. A tropa de choque vinha à cavalo para cima dos gremistas, precisasse ou não. Houvesse provocação ou não. Fosse justo ou não. Como naquele fatídico 13 de junho deste ano, muito antes de ele acontecer. Em comum entre os dois eventos, talvez só o modus operandi policial de bater antes de perguntar.

Então por isso, dois meses depois de iniciadas as manifestações pela redução da tarifa de ônibus – e pelas mil outras causas defendidas pela multidão sem liderança,  que exigia da redução inicial ao impeachment da presidenta, em uma demonstração exemplar de desorientação política – não pude ir ao protesto.

Naqueles dias, acompanhei tudo do sofá, como reza a cartilha do covarde, com um olho na lente do comandante Hamilton – ora lenta, ora nervosa – e suas distorções, e o outro nos relatos de amigos que respiravam gás lacrimogêneo e desviavam de balas de borracha. Se não fui, não foi pelos vinte centavos, não foi por concluir depois, do sofá mesmo, que os protestos haviam assumido um aspecto guarda-chuva, mãe de todos, abrigando uma enorme massa de manobra potencial. Foi porque há muito percebi que nada é como parece ou como devia ser. E que a policia não está aí para te defender.

Sim, esta é uma respostagem. O texto foi originalmente publicado no blog do curso de Pós-Jornalismo ministrado pelo Ronaldo Bressane na b_arco.

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