São Paulo, 11 de Julho

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Às vezes não há mais nada para se fazer. Abro as cortinas, cerveja na mão, deito no chão da sala pra ver começar o show. E ela se mostra pra mim, se exibe, ri, mete o dedo na minha cara. Toda nua, se escancara de pernas abertas. Pudor não consta no seu léxico. Sem curvas, não é uma puta bonita. Reta, de ângulos duros, prédio atrás de prédio, com aquela lua deslocada no céu poluído, sem estrelas, é até grosseira. Mas ainda esnoba, rebola, sabe que é linda assim mesmo, meio torta. Devassa, às vezes me puxa da plateia. Me despe, me violenta, me suga inteira. Até me cuspir, mais amarga e descrente. Murcha e seca, tal como uma uva passa. Mas às vezes ela me embala. Me nina, me põe no colo, me lembra que estou sozinha. E que sozinha, nos braços dela, eu posso tudo. Me lembra que eu não posso ir embora. Não posso deixá-la, de jeito nenhum. Me dá a mão, me puxa, diz “vamos”. E eu vou. De mãos dadas com ela, noite afora. Ela não tira a maquiagem, não abre mão da cinta-liga e do corset. O show não pode acabar. E entre um gole e outro de cerveja, só me resta aplaudir.

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3 comentários sobre “São Paulo, 11 de Julho

  1. Bem-vindos a orgia niilista da Fê. Puta vida que lindo isso, uma das melhores definições que já li cara! Parabéns mesmo.
    Ai que gostoso, que delícia, muito mais paulista.

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