O filho do homem

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A maioria de vocês sabe que estou escrevendo uma monografia sobre “El Che” Guevara. Como eu sei disso? A maioria que frequenta esse prostíbulo é de amigos meus. Enfim, a monografia não é bem sobre Che. Na verdade analisa se a fotografia mais famosa dele, “Guerrillero Heroico”, clicada por Alberto Korda em 1960, foi esvaziada da sua carga ideológica ao longo de sua trajetória, ao estender seu domínio para além das faixas de protesto para se tornar uma commodity.

O post na verdade não tem nada a ver com isso. Mas acontece que, pesquisando para a monografia, descobri um dado importante, curiosa e felizmente pouco explorado pela mídia e pelos biógrafos de Che. Ele tem um filho ilegítimo, que nem ao menos desconfiava da identidade do pai até os 25 anos de idade. Omar Pérez Lopez descobriu através dos seus amigos do movimento cultural e político cubano Paideia, do qual participava, que era filho do guerrilheiro. Nascido em 1964, Omar foi fruto de um breve caso entre Che e Lilia Rosa López. De acordo com o livro “Che’s Afterlife”, de Michael Casey, os dois se conheceram casualmente quando ela, então uma jovem estudante de jornalismo, visitava uma amiga, Ida Pérez, que trabalhava no Instituto Cubano do Petróleo. Ministro da Indústria, Che estava no local a trabalho. Surpreendeu-se com o livro nas mãos de Ida, “The Technique of Coup d’État”, de Curzio Malaparte, provavelmente porque Malaparte era, nas palavras de Casey, um fascista renascido comunista. Prometeu levar outro livro a ela, e aí começou o caso com Lilia. E embora Aleida Guevara, filha legítima de Che com a sua última esposa, Aleida March, e porta-voz da família não reconheça, a semelhança de Omar com Che é inegável.

Imagem

Omar Pérez López, Havana, 2007

Voltando um pouco no texto, disse antes que felizmente o filho ilegítimo é pouco lembrado. Pelos detratores de Che, ele é mencionado apenas para fazer referência ao período que passou em um dos campos de trabalhos forçados idealizados pelo pai, por sua liderança rebelde frente ao Paideia. Nas biografias sobre o guerrilheiro, é comum que os autores lhe dediquem poucas ou nenhuma linha. Ainda bem.

Como poeta, Omar poderia facilmente ser ofuscado pelo fantasma do pai. Ser o poeta-que-é-filho-de-Che-Guevara. E ele é um poeta fantástico. A desvantagem, claro, está no fato de que por isso mesmo ele é muito pouco conhecido. Deixo com vocês “Sangre de Alumnos”, que me levou ao seu primeiro livro, “Algo de Lo Sagrado”.

Todos necesitamos de un padre
aunque sea uno macilento.
En el momento en que la fusilería
pasa a ser la estrella de una función interminable,
el joven pide a su creador una palabra
que le ayude a no traspasar cegado por el humo
el acre que lo separa del carnicero.
Al niño después de mostrarle el uso de las manos
se le enseña que nada puede serle más dañino
que la cercanía de un maestro preciosista,
somos alumnos incapaces de distinguir un latido de otro
apenas conocemos el peso que se afianza entre las pulsaciones.
El padre es la garantía de un seguro en el arma,
nada como eso puede conservarnos
el centímetro cuadrado de piel de arcángel en el torso.
Todos necesitamos de un padre
aunque su brazo se agote en el cabo del hacha”.

PÉREZ LOPEZ, Omar. Algo de Lo Sagrado.

PS: Para quem quiser saber mais sobre o autor, recomendo os artigos “Omar Pérez and the Name of the Father” e “Coño acere, todo se vuelve agua!“, assinados pela sua tradutora para o inglês, Kristin Dykstra, e publicados pela revista Jacket. Aliás, recomendo muito essa revista de modo geral.

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