Saudosas cantadas

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Despudorados como um gracejo de botequim. Assim são os livros da já saudosa – e, diga-se de passagem, acertadamente nomeada – coleção Cantadas Literárias, da Editora Brasiliense. Criada nos anos 1980 e focada no público jovem, a Cantadas Literárias dedicava-se a lançar escritores então desconhecidos. Foi através dela que toda uma geração conheceu Paulo Leminski, que a pedido dos editores escreveu o romance “Agora é Que São Elas”, Caio Fernando Abreu, que por meio da coleção publicou o cult “Morangos Mofados”, e Marcelo Rubens Paiva, que na ocasião nem podia imaginar que o seu “Feliz Ano Velho” se tornaria um sucesso comercial, com direito a filme estrelado pela atriz Malu Mader. Também com ela, muita gente conheceu a poesia de Chacal, Chico Alvim, Ana Cristina César e Martha Medeiros, que à época era uma jovem estudante de publicidade.

Embora estilisticamente díspares, todos os autores discorriam francamente sobre sexo, drogas e identidade, entre outras questões típicas de jovens de qualquer tempo e lugar. Em suma, tinham em comum uma temática e uma linguagem mais acessíveis. Ou pelo menos mais próximas do jovem do que os aborrecidos clássicos que ele era obrigado a ler na escola. Perdoem-me os puristas, mas esperar que alguém tenha prazer na leitura partindo de O Guarani, de José de Alencar – e suas longas e muitas linhas apenas sobre o banho de uma mocinha – é pedir demais. Eu sei disso, você sabe disso, Caio Prado Júnior sabia disso. Quando pensou em uma literatura que pudesse efetivamente aproximar o adolescente dos livros, o então diretor da Brasiliense acertou em cheio. “É verdade que se lê pouco no Brasil?”, perguntava na contracapa do primeiro número. A coleção vendeu como água.

Estava em todos os lugares, na boca e na mochila de seus leitores. Em tempos sem internet, era um achado. Hoje, basta digitar no Google a frase “Caio Fernando Abreu” para ter acesso à obra do autor – ou pelo menos a dezenas de citações de sua obra. Para quem usa o Twitter, é ainda mais fácil. É só seguir o usuário @CaioFAbreu, criado por um leitor, e voilá! As citações aparecem em sua página. Citar Caio Fernando Abreu hoje é banal como escovar as dentes. Mas nem sempre foi assim.

É claro que os pais e a crítica torceram o nariz. Imagine só um livro que narre, de qualquer forma, o ato sexual? Ou que tenha em seu vocabulário uma boa dúzia de termos para descrever a genitália humana, termos que nem esse blog de família teria a coragem de reproduzir? Ou que fale abertamente sobre drogas ilícitas? Ou pior, faça tudo isso de forma despojada, livre das amarras daquilo que era considerado correto dentro da literatura? Era uma afronta. Fernando de Barros e Silva, em um artigo de 1989 do falecido suplemento Letras, do jornal Folha de S. Paulo, considerou a coleção um investimento dos editores “em temas do cotidiano e textos fáceis para arrebanhar um público sem cultura e carente de referências literárias”.

Mas o tempo passa, o tempo voa, e a coleção hoje é referência. E é uma pena que, tão esquecida e necessária quanto aquele bilhete desavergonhado com um número de telefone trazido pelo garçom, só se encontre em sebos.

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Texto extraído do Ficadicaok, blog coletivo escrito por essa que vos fala e pelos queridos Verônica Buratini, Régis Godoy-Rocha, Fabrício Fernandes e Erica Bernardini. Passem lá, recomendo.

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