O extermínio de Buñuel

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Augusto Benedico e Silvia Pinal em "O Anjo Exterminador" (1962)

“A única explicação racional e lógica que tem este filme é que ele não tem nenhuma”, afirmou certa vez Luis Buñuel sobre “O Anjo Exterminador” (1962). Clássico indiscutível do cinema, vencedor do prêmio Boril de melhor filme não-europeu e indicado a palma de ouro em Cannes, o filme está a anos-luz do simples nonsense. O que pode ser entendido é que não há explicação para como, após um jantar, um grupo de aristocratas fica preso na sala de estar de uma mansão sem razão aparente. As portas estão abertas, mas ninguém sai. No início, todos acham algum motivo para ficar. Os que tentam sair sentem-se mal, simplesmente não conseguem passar para outro cômodo. Mesmo depois, em meio ao caos, a fome e a doença, pouco fazem para vencer o obstáculo que os mantêm presos. A crítica que  o diretor desenvolve nesse espaço, espécie de laboratório em que um grupo da classe alta é forçado a conviver e lutar por sua sobrevivência, é repleta de significado.

Última obra da fase mexicana do mestre surrealista, em que realizou filmes como “Os Olvidados” (1950) e “Nazareno” (1958), “O Anjo Exterminador” é, acima de tudo, uma crítica a moral e aos costumes burgueses. O convívio forçado e as privações nunca antes experimentadas pelo grupo fazem revelar, gradualmente, os instintos mais básicos. Caem a cortesia, a cordialidade forçada, o refreio do impulso sexual. Tudo que era dissimulado passa a mostrar-se cru.

A moral dos personagens, revelada sutilmente no início – no falatório maldoso à mesa, na falta de ética do médico que oculta da paciente terminal o avanço de sua doença, no relato da jovem que sentiu a morte de um amigo próximo, um príncipe, mas não se comoveu ao ver a morte de dezenas de “pessoas baixas” (como se refere às classes menos favorecidas) em um acidente – é escancarada ao longo do filme. O mesmo acontece com a superficialidade de suas relações, demonstrada logo nos primeiros minutos. Através de cenas repetidas, o diretor possivelmente tenta demonstrar o tédio e a repetição que vivem as classes mais abastadas, regidas pelas aparências e por relações de interesse e conveniência.

Buñuel, impiedoso, mostra como uma outrora contida anfitriã, que num primeiro momento revolta-se com a permanência dos convidados, deixa-se seduzir por um deles às vistas do marido. Como homens, até então formais, passam a agredir mulheres.  Como o jovem efeminado, segundo a irmã “mais delicado que uma moça”, por fim demonstra-se violento e maldoso. Sem máscaras, a fragilidade de caráter de todos é finalmente exposta. No seu extermínio, ele não poupa ninguém.

Nem mesmo o maître. Ao contrário dos outros empregados, que misteriosamente fogem da casa pouco antes do jantar, ele deve perecer. Sua essência é a dos patrões. Não só critica os subordinados, mas trata-os como números. Quando despede um deles, chamado Lucas, afirma para outro que “há muitos Lucas no mundo”. Como os demais, ele deve sofrer.

Dito isso, fica claro o alvo do diretor. Entretanto, seria incorreto limitar as motivações à sua reconhecida simpatia pelo Marxismo. Buñuel acima de tudo reprovava a moral burguesa, a qual considerava “uma imoralidade contra a qual há de se lutar”.  Nesta obra, bem como em “O Discreto Charme da Burguesia” (1973), construiu uma crítica singular às elites.

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2 comentários sobre “O extermínio de Buñuel

  1. matheus girotto

    Muito bem escrito, parabéns! Porém discordo do nosso amigo diretor, não da misses here, dizendo o óbvio: se a elite não presta, o que é uma verdade incontestável, a classe pobre certamente não o faz também. São farinhas do mesmo saco, com a única diferença que as elites tem costumes morais que, once a while, subvertem seus instintos mais primitivos. Buñuel precisa visitar a parte pobre da Princesa Isabel aqui de Viamão, ou a Vila Cruzeiro ali de Porto Alegre, ele então verá, que ao contrário do filme, os instintos terríveis não são liberados em situações incomuns, mas no cotidiano infernal.

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