Francisco

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Francisco pedia pouco. Não desejava a felicidade de plástico, os sorrisos entalhados nos rostos, a família do comercial de margarina. Francisco só queria ser normal. Não que tivesse algum problema grave, ao menos não aparentemente. Qualquer um que lhe visse acreditaria que era um cara como os outros. Só ele sabia do sentimento de inadequação, do nervoso de não saber o que fazer com as mãos, com os olhos, com a boca, com aquele monstro que se contorcia ruidosamente dentro dele. O pior era o monstro.

Francisco era feliz. O namoro com Fabrizia, menina de intensos olhos azuis, ainda gozava da graça dos começos. Dava os primeiros passos na carreira, na editoria de política do jornal local. No entanto, ele trocaria instantaneamente toda a felicidade do último mês por segurança. Ao menos naquele ônibus lotado, cujo pânico olfativo voltava agora a revolver-lhe as narinas. A mistura ocre de suor e deo colônia distraía-o um pouco. Ele próprio suava, gotas deslizando pela testa. Toda a segurança do mundo para ficar tanto tempo em meio a tanta gente, pensava.

Francisco olhou para o piso, um de seus passatempos favoritos. Além da vantagem óbvia de evitar os olhares, pela prática podia indicar facilmente quem era quem pelos sapatos. Quem ganhava bem, quem tinha mau gosto. Sapatos dizem muito sobre quem os usa. Distraiu-se por alguns minutos com a brincadeira, até olhar para os próprios pés. Foi só então que ele notou o pequeno guarda-chuva, verde musgo que era outro verde por estar molhado. Encostado na lateral do ônibus, só poderia ter sido esquecido. Apanhou então o curioso objeto, pensando que de fato era muito estranho achar um guarda-chuva. Sempre os perdia, achar era a primeira vez.

Francisco riu. Recostou a cabeça no vidro, agora já mais relaxado. O percurso do trabalho até a sua casa era longo, e o cansaço de noite após noite mal dormida se fazia sentir. Trabalhava desde muito cedo, só passando em casa para trocar de roupa e chegar a faculdade, no final da tarde. O tempo que tinha para estudar de fato era a noite, isso quando não ia a um ou outro bar com os colegas, depois das aulas. Escorregou a cabeça até o apoio do banco, sentindo os olhos pesarem com o sono e o calor. Por fim adormeceu.

Francisco acordou assustado, de um daqueles sonhos que nos despertam alertas. Olhou em volta, para se dar conta de que já era noite fechada. Impossível, ainda mais em pleno horário de verão. Havia dormido tanto assim? Por que o cobrador não lhe acordara, no fim da linha?

Francisco observou mais atentamente. Pelas janelas já não se via mais uma paisagem urbana. O ônibus percorria agora uma estrada de terra muito íngreme. Ele não lembrava de ter passado jamais por um lugar assim com aquele ônibus. No entanto, nenhum dos outros passageiros – ele contava sete – parecia estranhar a situação. Dirigiu-se então ao cobrador, com uma profunda desconfiança de que algo muito errado ocorria ali. O cobrador sorriu cordialmente, como nenhum outro cobrador jamais lhe sorrira.

“O que está acontecendo?”, perguntou Francisco. O homem parecia não entender. Murmurou baixinho, com um meneio de cabeça: “Ahn?”. “O que está acontecendo aqui?”, insistiu. “Aonde estamos, que horas são?”. O cobrador voltou a sorrir. “São nove e vinte, e estamos exatamente onde deveríamos estar”. A resposta enigmática enervou o rapaz. Francisco respirou fundo, voltando a sentir aquele desconforto. Não gostava de falar com estranhos, quiçá pedir informações. Toda vez que as coisas se complicavam, resignava-se. Necessitava de tempo, até possuir energia novamente para o que para ele era uma espécie de provação social.

Francisco voltou ao seu lugar, resolvendo esperar. Logo solucionaria aquilo, pensava. Logo mesmo. A estrada sugeria que estava longe demais, e nisso se pegava meditando sobre como estaria sua família, seus amigos, sua namorada. Estariam já preocupados, perguntando por ele? E as aulas, como faria? Como justificaria as faltas daquela noite?

Francisco tentou segurar a situação por mais um tempo, voltar a dormir. Virou-se de um lado para o outro enquanto o ônibus seguia sem parar. Agarrou-lhe o pânico quando viu que todos os outros já se acomodavam para dormir. Por que ninguém falava nada? Por que agiam como se aquilo fosse natural? Voltou a insistir numa conversa com o cobrador mais uma ou duas vezes, sem sucesso. O homem apenas sorria, daquela maneira que já lhe parecia um pouco demente, e se esquivava com evasivas.

Francisco viu pelas janelas os primeiros raios de sol. Seus companheiros de viagem levantavam pouco a pouco, desgrenhados, limpando a saliva do canto da boca. Não suportava mais aquela situação, já pensava até mesmo em atirar-se do ônibus em movimento. Foi então que ele parou. O rapaz viu, não sem espanto, formar-se então uma pequena fila indiana. Sem hesitar, entrou também nela – não sem antes apanhar o guarda-chuva. Por alguma razão acreditou que seria bom levá-lo.

Francisco desceu do ônibus inquieto. O cenário que avistou foi o de um vale, de um verde vibrante que jamais ele veria de novo. Não importava. Sua mente estava longe demais para apreciar a vista, contemplá-la de fato. Logo estaria de volta a sua casa, logo daria uma explicação lógica para tudo isso. Afoito, buscou o celular nos bolsos das calças. Queria logo dar notícias a família, mas por alguma razão o aparelho estivera sem sinal durante toda a viagem. Olhou a pequena tela. Nada ainda. Só restava caminhar, explorar onde parara aquele ônibus esquisito, buscar qualquer transporte até a cidade – ou ao menos alguém que lhe dissesse onde estava. Os outros passageiros seguiam seu caminho depressa, dispersavam-se por entre caminhos diversos. Nenhum deles parecia ouvir o seu chamado.

Francisco andou, andou, andou. Tudo o que via era o verde da mata, e o sol do meio-dia que já subia alto. Depois de duas horas de caminhada, e quando tudo que via ainda era mato, começou a preocupar-se. Foi então que buscou abrigo numa árvore. Sentado a sombra, acendeu o cigarro. Primeiro de muitas horas, tragou-o sofregamente. Logo avistou as cabanas, tão baixas que não chegavam a sua cintura. Ou assim ele pensou, daquela distância ainda perigosa para um julgamento mais minucioso.

Francisco suspirou, e por fim jogou longe a bagana. O sol lhe incendiava as faces e os braços, mesmo debaixo daquele pinheiro que agora servia de abrigo. Decidido, arrumou a mochila nas costas e rumou para o que agora parecia um povoado, cabanas e mais cabanas surgindo ao passo que se aproximava.

Espreitou a primeira cabana a qual chegou, situada ao lado de um charco. Logo foi recebido por um pequenino homem, que prontamente o cumprimentou no mesmo tom cordial que estranhara no cobrador. “Olá, caro amigo, esta é a terra dos anões”. Então começou a compreender. Não precisara perguntar, a lenda era verdade. De fato os guarda-chuvas conduzem a uma terra estranha. “Olá, meu caro. Tenho muito a lhe perguntar”.

Francisco, exausto da viagem, necessitava um lugar para dormir. O rapaz, até então tímido, aceitou prontamente o convite do anão, que lhe chamava com um aceno para entrar em sua casa. Um lugar curioso, sem dúvida. Toda colorida por dentro, aquela cabana parecia fazer o tempo parar. Lá perdeu a noção das horas, e dormiu um sono profundo. Duas, três, quatro noites, já não sabia mais. Logo esqueceu aquela noite, os pais, os amigos, a namorada, toda a vida que conhecera até então.

Francisco não era mais Francisco, estava entre iguais. O desconforto intermitente desaparecera. Media um metro e oitenta, mas achara o seu lugar.

Nunca um guarda-chuva fora tão útil.

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Um comentário sobre “Francisco

  1. Poxa, gostei do conto. O começo é meio cansativo com aquelas explicações sobre o Francisco, mas depois que a coisa flui, que o ônibus cai na estrada escura e vai desconectado o personagem da realidade, o texto fica muito interessante, mesmo. O tal vale descrito parece um misto de algo maravilhoso e, ao mesmo tempo, sombrio, assim como os duendes, que causam medo e curiosidade. A escolha final para o personagem também foi muito boa, qualquer outro final além desse teria ficado ruim. Parabéns!

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