Sangue italiano correndo nas veias, não mexe comigo. Explodo de amor e de raiva. Pele fina, sensível ao toque. Se não quer levar, não mexe. Se quebrar, vai pagar. Durona até o primeiro olhar. Carapaça grossa até desabrochar. De ostra me torno flor em minutos. Tão rápido murcho. Piso firme, mas quebro o salto. Grito até acordar a vizinhança. Por onde você anda, a essa hora? Esperei no sofá, mas não digo. Se perguntar, eu nego. Rôo as unhas até descascar. Esmalte novo, comprei ontem. Não reparou?
Eu sei. Como nunca percebeu o meu desespero lento. Noites e noites encarando o telefone, até ele parar de tocar. Que coisa ridícula. Pra que tanta angústia? Isso não era pra ser bom? Caio Fernando definiu isso como uma “necessidade fresca & neurótica de elaborar sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois sentar Atormentado & Solitário para escrever Belos Textos Literários”. Disse que “o escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável”. Devia estar certo.
Aborto espontâneo. Morte prematura dessa criatura que me assustava tanto, tanto no início, da qual aprendi a gostar. Carreguei comigo. Quase lhe dei um nome. Já a ia enfeitando, na minha cabeça. Uma desculpa pra isso aqui, um defeito maquiado acolá. Queria-a perfeita. Gestação curta, morreu sem alimento. Morri um pouco junto.
O sangue italiano ferve, mas borbulha até se acalmar. Mistura-se com o sangue alemão. Algo me sobrou daquela gente da Alsácia. Como é mesmo o seu nome? Não mexe comigo. De vulcão cuspidor de lava, volto a monte pacífico em pouco. Mas não sem deixar um rastro de destruição. Não sem espalhar as cinzas. Não sem transformar em rocha.
Gostei, bonito. A vida é Simulacro sem charme.rs Que tristeza.